Quarta-feira, Março 15, 2006
morte. consumação.
A morte, sobretudo, acontece sem aviso.
A morte é uma ausência de por quês. A morte é um suspiro.
É um: "mas, como assim?". E já se foi.
É cantoria. É como todas as músicas são.
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but we cannot cling
to the old dreams anymore.
no, we cannot cling to those dreams.
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ah, they'll never ever reach the moon -
at least, not the one that we're after.
it's floating broken on the sea, look at there, my friends!
and it carries no survivors.
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vamos celebrar o horror de tudo isto,
com festa, velório e caixão.
está tudo morto, enterrado agora,
já que também podemos celebrar
a estupidez de quem cantou esta canção.
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A morte só tem aquele aviso meio que implícito, meio que não.
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could this be the time when somebody will come
to say: "look at yourself, you're not too much use for anyone"?
but it takes more than this to make sense of the day
yeah, it takes more than milk to get rid of the taste.
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the people are living far away from the place
where you wanted to help - it's a bit of waste.
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And the puzzle will last till somebody will say
"There's a lot to be done while your head is still young"
If you put down your pen, leave your worries behind
Then the moment will come, and the memory will shine.
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Então é isso.
O conceitual acaba agora. Igualmente como a seqüência de textos iniciada em vinte e oito de julho de 2003. Este blog morre hoje.
Este blog morre agora.
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let's sing another song, boys. this one has grow old and bitter.
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Adeus.
posted by b.m. at 12:34 PM
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Segunda-feira, Março 13, 2006
morte. prólogo.
O conceitual dos cinco temas, eu encerro sua interrupção neste momento. Apesar disso, ele não será tratado da mesma forma. A resposta para a pergunta "o que é universal?" aqui será respondida como o foi em o auto da compadecida: universal é só a morte. O conceitual antigo está encerrado. Outro conceitual começa. Este é o último conceitual, e, mui convenientemente, seu nome é Morte. Esse é o início.
posted by b.m. at 9:05 AM
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Domingo, Março 12, 2006
sobre aquele protesto do mst, sabe.
Um laboratório químico foi destruído por integrantes do MST. O que sabemos é isso. Tantas pessoas foram até o lugar e destruíram tudo. Um grupo, parte de um conjunto maior, fez tal coisa. É certo o que fizeram? Não. Leu? Então, não é. Chico Mendes fazia coisas semelhantes tão somente com a permanência nos lugares. Não deviam ter destruído? Não deviam. Mas presta atenção.
As pessoas que compõem esse grupo, você deve concordar, não estão em uma situação muito agradável. O que o governo faz é ajudar de forma assistencialista, e, sendo assim, alguém te dá dinheiro hoje, depois, e, então, se parar, você, sei lá, morre. Uma dependência que foi criticada já na concepção do programa Fome Zero. Além dessa ajuda ineficaz, essas pessoas não tem realmente casa. Nem tem, realmente, forma de sustento. Casa e forma de sustento, nesse contexto, se resumem em "terra". Não existe, então, "terra", sem ambas. E não há terra pro povo.
Certo. Não tem terra. Como conseguir terra é a pergunta. Você, claro, poderia juntar um grupo toda semana e discutir a melhor forma de agir, arquitetar um plano de ação mui elaborado que, muito provavelmente, daria certo. Mas (mas) considerando os problemas sobrecitados, a história da fome e de não ter casa,eu (eu) não acredito que alguém pensaria nisso. Eu (eu) não acho que esta pessoa iria ponderar sobre todos os aspectos, sobre todos os pontos envolvidos, sobre o que causariam suas ações, sobre o que o Papa iria achar disso. Não acredito.
Agora, por que destruir as coisas é meio de conseguir terra? Não é. Meio de conseguir terra é, anh, matar o fazendeiro e ficar no lugar dele. Mas existe um grupo. O interesse desse grupo é mais levado em conta do que o interesse individual. O interesse individual poderia ser facilmente satisfeito com ações puramente criminosas, mas não o interesse geral. Para que o interesse geral, a saber, o interesse do MST de conseguir assentamentos para todos (todos) os seus integrantes, ele há de tentar chamar a atenção da sociedade para os seus problemas. Chamar a atenção da sociedade. Sim. Mas por quê?
Porque, em uma forma geral, esse país é democrático. Em um país democrático, as coisas são movidas a base de opinião. As opiniões não mudam muito de lugar. Pessoas que hoje pensam que comunistas devem morrer, provavelmente estarão pensando isso daqui a dez anos. Para que opiniões mudem, precisamos de atitudes intensas. Mudar a opinião da sociedade, ou pelo menos fazê-la olhar pra você, é ter atitudes bem intensas. Atitudes intensas são coisas que chamam a atenção da mídia. A única forma possível de chamar a atenção da mídia é se tornar notícia.
Então. As pessoas que destruíram o laboratório não estavam certas, mas se tornaram notícia. Quando se tornam notícia, elas despertam reações em diversos pontos da sociedade, que, mesmo na repulsa, assim como na aprovação, levam à mesma atitude por parte do governo, que é mudar a tal situação. Elas não estavam certas. Mas funciona. Podem matar todos. Ou podem pensar na reforma agrária.
É só isso que eu quero dizer: estão erradas? Estão. Mas não tem nada e essa é uma forma de ter o espaço de que precisam. Então fazem. É isso.
Agora me digam um jeito melhor, antes de defender as propriedades e blá.
posted by b.m. at 4:17 AM
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Quarta-feira, Março 08, 2006
[sete de sete e final.] shelter from the storm.
_(encontrei, num dia, um poeta francês jogado no chão. em algumas linhas, ele disse o que por séculos eu tentei esquematizar nas paredes de casa. E este poeta conta que certas sombras fazem um esforço para permanecer em sua unidade, atitude que se mostra vã, quando ele vê uma dessas sombras destruída, "não era mais do que um ruído". e ele ainda disse mais.)
Deus começou a se tornar pó, assim como eu havia me tornado. Pó sobre terra e pedra, sedimentos por séculos acumulados estavam por sobre as respostas, cá para estas perguntas: No que foi que falhamos, eu e Deus? Qual a esquina que deixamos passar, o segredo que deixamos de ouvir, o erro que nos arrebentou a costura inata, e agora, agora, só existe pano e pano, pra roupas diversas. (if I could only turn back the clock to when God and her were born). Me sobra observar a minha memória. E minha memória me mostra Deus, como exemplo.
(i came in from the wilderness, a creature void of form) Deus era em si tudo o que sempre foi. O que Deus não era, fora criado por ele. Em tempos imemoriais, quando eu era invulnerável porque não lutava, Deus me apresentou o mundo, e eu o percorri. Mas isso não era bastante a Deus. Se ele vivesse assim, estaria condenado a jogar, para sempre, um jogo no qual ele distribuiu as cartas e fez as regras. Deus fez seu paraíso. Nisso, diz a memória, residem os nossos erros.
_(conheci também uma poeta que devorava insetos, a pensar que comendo o que lhe trazia nojo, repulsa e medo, teria ampla a própria visão. E ela disse que havia uma indiferença titânica no mundo, que só está interessada em caminhar. E a quem caminha com ela, resta apenas a tentação. Do prazer. "A tentação é comer direto na fonte. E o castigo é não querer mais parar de comer".)
Antes que a Presença surgisse, eu havia cometido o desejo de me espalhar para ter tudo o que podia. E, sem perceber que o que eu deixava era tão relevante quanto o que eu fazia, permaneci crescendo, até que não me tornei gigante, mas a imagem da abrangência_(Mas o poeta do chão disse que a sombra não era mais do que um ruído, só que enorme. Um mundo imenso ainda a escutava, mas ela não existia mais, transformada somente e unicamente em um ruído, que ia rolar séculos ainda, mas destinado a apagar-se completamente.) E Deus, ah, Deus tentou mergulhar no que criara, e acabou em si. Estava tão em si que se tornou averso ao exterior. E era um monstro quando a Presença apareceu.
_(desculpe, homem, se disse demais. Mas repeti tantas vezes, por tantos lados, que creio que me fiz claro. Se não me fiz, te digo que ontem me entenderam, ao menos por sorte, me entenderam. Não sou o único. E essa frase traz alegria.)
(do I understand your question, man? "is it hopeless and forlorn?") Deus se tornou pó como eu, e se misturou à Terra. E agora Deus e eu éramos a mesma coisa, e eu percebi que sempre fôra assim. Lembrei de algo que eu percebera logo no início: imaginei que certas partes não me compunham como pessoa. Eu era Deus e era Nada. A abrangência e o específico. A resistência e a força.
_(a beleza da vida é que ela tem sorte. e a gente acha as respostas assim, como se fossem nada, jogadas pelo caminho.)
A resistência e a força. Eu vou viver à revelia. Minha força há de criar o eu que deve ser criado, a resistência deve mantê-lo vivo, a abrangência me livrará de mim mesmo quando necessário, o específico me lembrará quem sou. E a força, após criar, teremos de decidir o que fazer com ela - Deus teve três escolhas com a Presença e _____mas, me sobra isso: o que é a Presença, se não é o que sou?
O que ela é? A Presença é o que seu nome diz que é. A Presença é o que sua imagem descrita nos faz recordar. A Presença é aquela que me encontra.
(she walked up to me so gracefully and took my crown of thorns.)
Pois a vida, testemunhada e compreendida, pois a vida assim lhe diz, para cá você pode voltar.
(try imagining a place where it's always safe and warm.)
Uma verdade que você já viu. Um imutável que ganhou o nome porque o tempo assim o declarou. Entenda, que agora eu largo a poesia: a porra de uma casa. A Presença lhe diz assim, que pra cá, a qualquer hora, pra mim, você pode voltar. E assim você não é o único na casa.
E essa frase, não concorda? - ela traz alegria. Porque ela fala de abrigo. O exterior é a única razão para a existência do interior.
(It's a never ending battle, for a peace that's always torn
"Come in," she said, "I'll give you shelter from the storm.")
E meu corpo começa agora a se erguer da Terra, por um momento refeito em uma imagem qualquer que me serve - e isso é o que sou, como tantas outras coisas podiam, com igual razão. Há o silêncio. Não haverá respostas, mas haverá certezas tênues: Não haverá paz, mas haverá abrigo. Eu não me entenderei pela razão ou pela alma, mas alguém me entenderá por intuição. Eu não serei Deus nem ele ordenará quem devo ser, mas seremos, os dois, ao mesmo tempo. Menores do que a mão que se estende, sempre. A redundância representará minha identidade reconhecível. Sou a terra, sustento e dou vida ao que cresce em mim, e, assim sendo, decido aquilo que deve ou não morrer. É o fim? Não, nunca é. Porque geralmente não quero que seja.
_(não me permitiram a linguagem dos homens. mas repara que eu disse como achei a alegria, a felicidade; com o desespero de um tolo, certo, mas eu a encontrei. e aí está.)
posted by b.m. at 2:41 PM
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Terça-feira, Março 07, 2006
coisa que eu tinha guardado pra postar, long ago.
"De fato, a entrega da vara ao aprendiz de mago, em geral, é um cerimônia bem impressionante, principalmente se a vara for herdada de uma mago bem mais velho. De acordo com a tradição, deve haver uma longa e assustadora iniciação envolvendo máscaras, capuzes, espadas e juramentos terríveis, que falam em pessoas com as línguas cortadas, as vísceras devoradas por pássaros selvagens, as cinzas lançadas aos oito ventos e assim por diante. Depois de algumas horas desse tipo de procedimento, o aprendiz pode enfim ser admitido na fraternidade dos Inteligentes e Iluminados." [Direitos Iguais, Rituais Iguais, Terry Pratchett]
posted by b.m. at 7:17 PM
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Sábado, Março 04, 2006
texto gigante concurso maldito tema: extraordinário.
Então. Li a maioria dos textos. Não li alguns porque fui descendo a barra de rolagem para ver o tamanho deles e minha barba já estava crescida quando cheguei ao final. Li os outros. De todos, achei três os melhores.
http://umasideias.blogspot.com/
http://norbertha.zip.net/
http://www.redbullcomtequila.blogger.com.br/
Aqui no blog, só o que eu critico. Com exceção do segundo, porque eu quero. Lá na comunidade, falo desses ai, os bons.
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O texto do Cineasta 81, tem uma frase: "como árvores de pedra nesta savana de metal" que é uma frase muito velha - clichê demais esse negócio de selva de pedra. Sem dizer que savana nem tem tantas árvores e, pelo menos eu, assim só consigo imaginar uma cidade como Piraporinha, e não uma São Paulo como parece que você queria. [post: Rui vê a cidade]
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Diferente do texto de Sou as Pouquinhos, que tem "este rio era um vaso sanguíneo seco e enrugado", que é bonito, e forma, de leve, a mesma idéia que o anterior com a idéia dos carros na rua. "o sol que fritava o mundo com pouco óleo" também é, não sei se você escreveu só por escrever, mas, enfim, um sol que queima o mundo errado (porque devia queimar mais) ou queima devagar ou pouco. Profundezas. Nada de pedra e savanas. [post: Finitude]
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Agora, o indivíduo do O Vôo do Pintassilgo escreveu uma crônica que é engraçada e liga bem um assunto no outro, sem que deixe perceber, como aquele cara da Folha de São Paulo, o Macaco Simão, faz. Isso é algum tipo de poesia, ó: "Com o tempo descobri que meu pintassilgo só subia e eram elas que voavam sob os lençois de linho bordados por minha bisavô índia", e liga a outro assunto.
Não votei nele porque você não seguiu o tema.
Ou vale eu dizer que meu pé é extraordinário e pronto? Porque é lógico que o seu ordinário lhe seja extra. Nem teve o trabalho de tentar ser abrangente. [post: Fanástico é o Pintassilgo]
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O Barulho no Silêncio começa com um poema que é típico de menina escrevendo sobre menino, tentando ser, sei lá, lírica, explicando a essência masculina, com isso de que a gente não chora, só brinca e vai ser garoto pra sempre. Clichê, clichê. E o Lenine fez melhor do que você, sobre ser sempre criança. Do negócio da guerra como brincadeira, Renato Russo também fez melhor, em "Soldados". Sei que é só a minha opinião. Por isso é que está certa, e você errada. Ah, e você usa a palavra "seios" a cada cinco minutos. Seios seios seios seios. Porque seios isso e seios aquilo, ainda mais os seios dos seios. E cadê o tema? Fico procurando o tema. Talvez entre o décimo-terceiro seio e outro.
[post: Sempre Meninos]
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Têm os doces que tem diversos sabores. Tem um garoto filho de rico que é muito malvado. Tem uma punição moralista no final. Meu deus, isso é uma fusão de A Fantástica Fábrica de Chocolates com Harry Potter. Um texto sobre o extraordinário que acaba sendo absolutamente ordinário em Fio de Ariadne. [post: Aconteceu na Loja de Doces]
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O Grito da Web me fez pensar no escritor, dez minutos antes de escrever, dizendo assim: "Ah! Vou pegar um paraplégico, fazer ele andar sem razão, fazê-lo ter o extraordinário no mínimo, fazer o leitor ter uma sensação boazinha, aí eu mato ele, mato o paraplégico", com um risada meio megalomaníaca.
Só pra me chocar, só pra chocar o leitor. Bah. [post: O Último Degrau]
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[post: Abrindo as Portas de São Vazio]
Com um enfoque parecido com o meu, disso (talvez) de imaginação: "Se um amontoado de folhas rabiscadas caírem, foi porque o tempo passou", pois é. Não sei porque isto está neste texto. Porque ele não cabe aqui. Então especulei sobre a autora, que deve ouvir Dance of Days, por conta do nome do blog, e se é uma coisa que o seu Nenê Altro escreve é sobre isso de tempo passar e folhas vazias e blá. Vide a música "Linda, a dor não é tão glamourosa assim", que tem um verso parecido. Mas ele não escreveu melhor. Você fez tão bem quanto. Tem lirismo, mas pode ser cópia.
Em Adeus, Sofia:
E eu achei isso muito bonitinho, coisa de criança, nem precisa ter razão:
"Ela disse: Varanda não. Quero morar dentro de uma laranja!
Abre a porta da laranja que sai um São vazio.
Eu falo: Eu já me perguntei se era geladinho morar em um tomate.
Abre a porta do tomate que sai um São cheinho.
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Concurso Maldito!
posted by b.m. at 5:57 PM
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Quinta-feira, Março 02, 2006
oh vida, oh merda.
A diferença entre o meu mundo e o dele era brutal. Enquanto olho o céu, no momento em que aquele helicóptero vai de um lado para o outro, eu tenho certeza de que nada de extraordinário ocorrerá. No mundo dele, subitamente alguém poderia surgir, e sabe-se lá por qual razão obscura, decidir que aquele objeto devia cair. Um homem, quem sabe, sem asas, de corpo vermelho e face repleta de fúria, puxando com uma mão a aeronave para baixo.
De fato, os carros da rua não estariam tão obviamente seguros, nem aquela, o quê, avó, bisavó, não sei, uma senhora que atravessa a rua, veja. Pois que do nada começa uma contenda, e um outro, com capa e roupa ridícula surge, e soca queixo, soca estomâgo, desaparece, vem de cima, mãos juntas, golpe na nuca. Como um cometa, rasgando o ar, causando uma explosão que lança os carros para as laterais. Também uma cratera, que seria posteriormente constatada, já com mais calma e muito menos desespero. Um dos carros, no ar, ponta-cabeça, cai quase em cima da velha, que correu pela vida. Correu bastante, até.
Pena que o carro cai e explode. Foi lançada para a frente, contra as grades de minha casa. Curioso como sua carne conseguiu ultrapassar os ferros: agora está dividida, o sangue espalhado pelo chão como se fosse um quadro abstrato.
Ah, eu gostaria de dizer que agora palito os dentes com uma parte da orelha da velha, mas isso não acontece no meu mundo. Que aqui na minha terra, uma fila de banco completamente monótona, comportando pessoas que, veja, nem tem expressão facial ou corporal de quem merece existir - sim, esta fila, está livre de desgraças as quais acontecem quando desce o herói e arrebenta o vilão em pleno ar, seguindo em linha reta, abrindo um rasgo no asfalto, arrebenta portas cuidadosamente arquitetadas do Bradesco, causa uma chacina, pelo bem.
Haveria alguém em meu mundo para reclamar disso. Não se pode matar um só tolo que já nos vem alguém a reclamar: ah, matou, isso é errado por isso e por aquilo, já pensou se começam a matar gente, que horror, é o mal da nosso tempo e não sei o quê a saúde, o Lula, e salvem as baleias e as crianças.
Ah, se crianças morressem como nadas que são no mundo dele, com sucinta queda de corpo morto de vilão sobre creche (se é que uma queda pode ser sucinta. imagine ai uma queda sucinta), e que a comemoração dos heróis não fosse tão porca e tão tola. Eu queria ver a morte de outros por uma razão bem clara. Mesmo que eu morresse, morria pelo vilão ou pelo herói, eu morria bem morrido. Sabendo: ah, morri. Mas que morro de uma morte sem nome e que é ordinária. Vida todo mundo tem, morte todo mundo tem. Escolho minhas surpresas no catálogo da Directv. Oh vida, oh merda.
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